Sobre Sonhos

ELE

O ano era 1985 e o mês era dezembro, o que para mim era um pesadelo. Apesar de eu sempre carregar estampado na cara um persistente e maroto sorriso, tratava-se apenas de uma camuflagem social, para atrair vítimas ou tentar resgatar algum benefício sendo simpático: essencialmente um meio de sobrevivência de um jovem órfão de 17 anos de idade. A angústia que me abatia era por conta da proximidade das festas natalinas, pois o último mês do ano era pouco festivo, pois além de lembrar-me que eu não tinha nem onde nem com quem passar o Natal, ainda por cima era aniversário do suicídio de minha mãe, há exatamente uma década.

ELE

Minha namorada à época, sete anos mais velha, também era sozinha na cidade. Ela trabalhava numa loja de roupas bem chique no Parkshopping, não me lembro se era Caixa ou se Gerente, ou sub-gerente… Contudo, naquele ano ela recebeu inusitado convite de última hora das filhas do dono da loja, para passar o Natal com a família deles. Por certo, hoje penso, deveria ela ser pessoa bem-quista na família, ou jamais chegaria tão íntimo convite. Quando soube me entristeci, porque, se já não tinha família, agora nem namorada teria para passar o Natal. Para meu entusiasmo, no dia anterior ao Natal, ela me contou que disseram pra ela “que o namorado também estava convidado”.

ELE

Apesar de novo naquela Brasília e tentando entender seus códigos culturais, eu já sabia bem da fama daquele bairro. Eu achava Lago Sul um nome mais que pomposo, o próprio em si – como se isso fosse possível – carregava certa pretensão, soberba e ostentação. Lago era coisa de rico. Sul era a parte rica das cidades. Um bairro residencial longe do barulho, do trânsito e dos problemas da cidade. Arborizado, bonito, silencioso, ruas largas, asfalto como teclas de ébano, bem policiado e cheio gente bonita em carros intangíveis. Na noite do dia 24, chegamos no fascinante Lago Sul com nossas melhores roupas. Estacionei na frente da deslumbrante casa e descemos da moto bem molhados, pois chuviscava persistentemente naquela noite. Tentamos nos secar com o que tínhamos. Não lembro mais de muita coisa daquela noite, além daquilo que penetrou minha retina e tatuou minha memória: sentado alegre – e já meio embriagado – numa larga poltrona da ampla sala, à luz de muitas e muitas velas, lá estava o patriarca, barrigudo, distribuindo presentes para todos da casa, fazendo graça, muitas piadas, algumas com e outras sem graça, mas todos riam. Eram mais de vinte pessoas ali e todos ganhavam muitos presentes. A mesa além de farta era colossal, com bebidas e comidas que eu sequer conhecia direito. Parei de ouvir a música, os risos, as falas excessivas, mergulhei em meu interior… Era muita distância financeira, muita distância educacional, um fosso cultural… distância implacável. Fosso aparentemente intransponível. Sem qualquer resignação disse a mim mesmo: “É isso. É isso o que eu quero. É por isso que vou trabalhar e batalhar a partir de hoje nesta cidade. Quero uma família, assim. Quero filhos com motivos para sorrir. Quero morar no Lago Sul. Vou ter uma casa assim e vou dar muitos presentes. Vou um dia fazer uma festa nesta dimensão de fartura. Amém!” Não sei se aquilo era mesmo uma oração, e se fosse, não sei se rezava para Deus ou para mim mesmo. Eu sabia que estava partindo do zero, aliás, do “menos dez”, e o desafio seria colossal. Dali em diante, trabalhei em silêncio, guardando meu sonho em absoluto segredo.

ELE

As décadas seguintes foram repletas de altos e baixos, bem-vividas. Aventuras existenciais construídas do jeito que eu sabia, podia e conseguia. Casei-me com a pessoa mais certo que eu poderia escolher – e confirmei isto anos mais tarde. Tive dois filhos. Abri e fechei empresas. Tive dinheiro. Perdi tudo. Reconstruí. Eduquei e… Hoje quando subo na cobertura de minha casa no Lago Sul para assistir ao mais lindo pôr do sol de Brasília, com a cidade espraiada sob meus pés, apenas louvo. Não canso de louvar. “Meu bem, isto é inacreditável!” O improvável milagre se tangibilizou.

Assinam Ele & Ela.

O banho e a flexibilidade

Eu e meu marido sempre gostamos de tomar banho juntos. No nosso primeiro apartamento, o banheiro era tão minúsculo que nem cabia um box. E mesmo assim nós dois curtíamos o banho juntinhos. Alguns anos depois construímos nossa primeira casa e decidimos fazer dois chuveiros! Que delícia! Os banhos a dois passaram a ser um momento ainda mais especial. A vida rodou e muitos anos mais tarde alugamos uma casinha e quase não acreditamos quando abrimos o box no banheiro social e “voilà”! Dois chuveiros dentro de uma banheira enterrada que mais parecia uma piscina! E mais recentemente construímos uma nova casa e caprichamos no nosso box com dois chuveiros! Ele é maior que o banheiro inteiro do primeiro apartamento! O dia que o Luciano falou isso no banho, gargalhamos e o coração encheu de gratidão pelas bênçãos que recebemos!

Outro dia estávamos iniciando nosso banho nesse box gigante e enquanto batíamos papo, comecei a observar em silêncio o que fazemos naturalmente todas as vezes que o banho começa: como o cano da água quente que alimenta os dois chuveiros é o mesmo, quando o Luciano começa a temperar a água dele eu tenho que mexer na minha. Quando mexo na minha, desregula a temperatura dele e ele ajusta mais um pouco e eu mais um pouco e assim fazemos umas duas ou três rodadas de ajuste até que cada um chegue na sua temperatura desejada e o banho de fato começa! 

Essa observação silenciosa me levou a refletir sobre o balé de ajustes que é necessário fazermos para que tenhamos relacionamentos saudáveis em todas as áreas da nossa vida. Para chegarmos na nossa temperatura ideal, precisamos ajustar nossos registros à temperatura daqueles que estão ao nosso redor. Até chegarmos no que consideramos ideal, a gente tem que ir ajustando vários aspectos até o momento em que alcançamos a “temperatura” desejada por cada parte. E assim a relação flui igual banho na temperatura certa pra cada um.

Nos ambientes corporativos esse balé de ajustes é primordial para a existência de times saudáveis e de alta performance. A cada mudança interna ou externa ao time, incluindo os movimentos de alguém que entra ou outro que sai, temos que ajustar o nosso tom, o nosso ritmo e a temperatura para acomodar novos desejos, novas estratégias, novos conhecimentos e novas contribuições. Se fôssemos resumir este descritivo em uma ou duas competências, diríamos que os membros do time precisam ter flexibilidade e adaptabilidade.

Contudo, nos projetos de consultoria de desenvolvimento de liderança que realizo é mais comum encontrar uma propensão à rigidez por parte dos membros de um time, do que flexibilidade e abertura para fazer os ajustes necessários e possíveis para que o ‘banho’ seja bom. Na maioria das vezes, cada um defende a sua temperatura, enquanto o outro que se lasque com sua água pelando ou fria pra caramba. Gente, a vida é melhor quando o banho é bom pra todo mundo! Não custa ajustar nosso registro pra lá e pra cá um pouquinho até que todos tenham boas condições para produzir aquilo que é esperado no trabalho.

E assim saio do banho, pego a toalha e insisto na pergunta: quais são os ajustes que você precisa fazer para que a temperatura fique boa pra você e para os colegas ao seu redor? No mundo supercomplexo em que temos vivido, a flexibilidade e a disponibilidade de cada um de nós para ajustar o tom, a fala, a crença, a resposta e, principalmente a pergunta, serão muito bem-vindas!

O Tempo – Second Round

Por alguma razão que ainda não identifiquei, o mês de janeiro me apresentou diversas oportunidades de refletir e aprender sobre o tempo – o uso do tempo, o passar do tempo e como aproveitar o tempo.

Entre dez de janeiro e ontem, sete de fevereiro, nossa casa que é normalmente calma e silenciosa, esteve deliciosamente cheia e agitada. Cheia de gente, cheia de barulho, cheia de comida, cheia de festa, de alegria e, cheia de vida! Perdi as contas de quantas mesas a gente arrumou, quantas garrafas de café a gente coou e quantas rolhas de espumante pularam alegremente das garrafas que nos proporcionaram brindes por estarmos juntos e saudáveis.

Nesse contexto eu tive que organizar meu tempo de uma forma diferente do usual, a fim de adaptá-lo a esse agito maravilhoso e intencional dentro de casa. E foi aí que descobri que nos últimos anos eu desaprendi a dividir e compartilhar meu tempo. No início da “temporada de visitas” (risos), eu sentia que existia um magneto dentro do escritório onde trabalho aqui em casa que me atraía quase que cem por cento do tempo; um magneto acompanhado de uma voz que sussurrava que eu tinha que terminar rápido o que eu estivesse fazendo para ir sentar em frente ao computador. Planejei férias em casa em alguns dias ao longo desse período e mesmo nesses dias, algo interno sinalizava que as coisas estavam fora do lugar.

Bem, tive um trabalho mental e emocional imenso para realinhar meus pensamentos e sentimentos para que pudesse usar o tempo e aproveitá-lo de uma forma diferente da rotina usual que combina 85% do tempo trabalhando quietinha e sozinha e 15% fazendo “todo o resto”. Foi necessário ressignificar o tempo em casa para conseguir curtir e viver tudo o que estava acontecendo. E eu repetia pra mim mesma: “Simone, preste atenção! Olhe ao redor! Seus pais estão brincando no jardim com a sua neta! Seu filho saiu de São Paulo e veio para Brasília três vezes em apenas 1 mês. Preste atenção ao fato de que sua filha, que mora aqui no mesmo bairro, arrumou a mala dela, marido e filhinha para dormir aqui também porque o irmão chegou e os avós estão em casa! Olhe a casa cheia de amores, Simone. Viva esse momento, Simone”.

E foi nesse cenário de beleza e alegria que eu decidi (re)tomar as rédeas do tempo do qual disponho, ao invés de seguir respondendo a demandas várias, em um estado de disponibilidade absoluta para aquilo que é externo a mim mesma.

Noto que a partir do momento em que tivemos acesso à tecnologia e trabalhar de qualquer lugar utilizando nossos computadores levinhos e nossos celulares potentes passou a ser tão normal quanto dormir todos os dias, tudo ficou muito misturado mesmo – as linhas que antes separavam claramente nossos espaços existenciais ficaram fininhas e fraquinhas, facilitando a transposição de limites entre os hemisférios de nossa vida. Para os que amam trabalhar como eu, fica a reflexão sobre a necessidade de reaprender a enxergar e viver as várias facetas da vida, mesmo sem a clara definição das linhas. Elas não voltarão a ser tão fortes e definidas nunca mais. Logo, cabe mesmo a nós a administração do usufruto do tempo, e não apenas do uso do tempo.

E assim compartilho alguns dos meus aprendizados do mês. Alguns são novos e outros são uma releitura de lições antigas. Aqui estão:

  1. Não deixe ‘a vida te levar’ quando o assunto é o uso do tempo. Associe intencionalmente o uso desse recurso às tuas prioridades de vida.
  2. Trabalhe intensamente e defina claramente suas próprias linhas para separar o trabalho do seu usufruto: separe tempo para o que você gosta, ao invés de fazer o que você gosta no tempo que sobra do seu trabalho. Usando a expressão que uma amiga disse há pouco, não deixe a vida engolir você!
  3. Não é sempre que podemos estar juntos dos nossos amigos e amores. Por isso aproveite ao máximo a presença deles quando os encontros forem possíveis. Sorva os momentos com a alma.
  4. Lute para afastar qualquer sinal de preguiça da sua vida e aprenda a diferença entre ela, a preguiça, e o descanso.

E agora que chego ao fim deste artigo, já entendi por quais razões o último mês me trouxe incontáveis oportunidades de refletir e aprender sobre o tempo. Ao reler o texto, cheguei a apagar a primeira frase, mas voltei atrás e deixei assim mesmo para que eu possa me lembrar de que sempre é possível (re)aprender.

Desejo um excelente USOfruto do seu tempo!

Simone Maia, em casa, 08/fev/2025.

O Tempo – First Round

Nesse início de ano eu e meu marido aproveitamos a calmaria profissional e tiramos um tempo para organizarmos pequenas coisas em nossa casa: as centenas de rolhas de vinhos e espumantes que colecionamos ao longo da nossa vida juntos foi um dos alvos da nossa organização.

Compramos dois vidros lindos enormes e chegamos em casa animados para transferirmos rolhas espalhadas em vários vidros menores e também guardadas em uma bolsa gigante dentro do armário para os dois vidrões novos. Primeira surpresa: os dois lindos vidrões novos não dariam nem pro cheiro! A quantidade de rolhas guardadas era grande demais! Tomamos então uma decisão: vamos selecionar e guardar apenas as rolhas que estão escritas com nossas lembranças e descartaremos as demais.

E assim começamos a seleção. Espalhamos o conteúdo da primeira grande bolsa de rolhas no chão e começamos a separar. É claro que nos perdemos em nossas próprias lembranças, risadas e gravação de pequenos vídeos para envio aos vários amigos mencionados nas ditas rolhas escritas.

O que foi esse dia aqui? Você lembra?

– Ahahahaha!!! Esse dia foi bom demais.

– Quem é essa pessoa? Kkkkkkk

– Que saudade dos amigos! Envia um vídeo pra eles com essa rolha?

– Essa é segredo! Ahahahah

– Nossa! Isso aqui já tem isso tudo de tempo?

O prazeroso “serviço de organização” foi demorando muito mais do que havíamos previsto à medida em que íamos nos divertindo e, ao final, praticamente enchemos os dois vidros novos com as nossas lembranças de bons momentos registrados nas muitas rolhas e dos muitos brindes que compartilhamos entre nós, nossas famílias e amigos ao longo das últimas décadas.

Nos momentos que se seguiram ao nosso trabalho de organização de rolhas, fiz a relação das nossas lembranças ao longo do tempo com a quantidade de tempo que dedicamos às diversas áreas e papéis da nossa vida. Como é difícil mantermos o equilíbrio de dedicação entre tudo o que nos propomos a realizar – o trabalho, os filhos, nossos amores e amigos, os cursos, a igreja ou outros trabalhos voluntários. Quantas coisas fazemos…

Outro dia assisti a um vídeo da Indra Nooyi, ex-presidente da Pepsico, e a frase “Be careful about all the choices you’re making, because you will look back and it will hurt like hell. And it does” (Indra Nooyi: “I have to remind myself of what I lost”) me impactou como uma facada na alma. Em um outro vídeo, ao contar uma história sobre sua filha e os biscoitos que ela tinha que levar para a escola, ela afirma que não há equilíbrio possível entre as funções que ocupamos na vida. E sigo me perguntando: como fazer para equilibrar tudo o que desejamos?

Bem, tenho pensado e concluído que o equilíbrio que tanto almejamos é mesmo desafiador e nem sempre possível; nem sempre poderemos fazer tudo o que queremos caso almejemos uma vida equilibrada. O que precisamos é exercitar a escolha daquilo que precisamos em cada um dos diferentes momentos das nossas vidas e carreiras, pois todas as possibilidades que temos dificilmente caberão em nossas 24 horas diárias. Então, como lidar com o tempo que passa voando? Fazendo as escolhas corajosas a cada nova etapa da nossa vida. Digo que são corajosas porque muitas vezes as escolhas necessárias divergem das escolhas desejadas para nós mesmos. Por isso é necessário coragem para olharmos cuidadosa e gentilmente para dentro de nós e respondermos de maneira sincera à seguinte pergunta: “agora é hora de escolher o quê”? Ou ainda: “o que eu preciso fazer com dedicação máxima agora”?

As crises de sobrecarga nas organizações e a demanda por consultorias sobre priorização de atividades no tempo tem sido crescentes nos últimos 3 anos – nunca havia recebido tantos pedidos de apoio parecidos dos meus clientes. E o conteúdo que tenho desenvolvido com cada um deles se inicia com a análise do que é importante, do que é urgente e do que pode ser deixado para depois. Simples? Sim, muito simples. Mas só é simples de entender. Não é simples de executar. Priorizar requer renúncias. E assim como é difícil renunciar coisas ou atividades que queremos mas estão fora de hora, ainda não consegui jogar fora a enorme sacola que sobrou com rolhas que não tem nada escrito nelas, mas que certamente representam que em algum momento houve um brinde em celebração a um dia de trabalho bem vivido, ou a amigos que se encontram tanto que não escrevem mais nada na rolha.

Desejo que em 2025 suas escolhas não sejam separadas entre “profissionais e pessoais”, pois você é um ser humano uno, integral, pleno e não dividido em gavetas e compartimentos perfeitamente organizados. Que suas escolhas sejam integradas e representem os maiores e mais importantes desejos de realização para o Ano Novo que se inicia.

Que a paz, a abundância, a prosperidade e a felicidade sejam resultantes das suas escolhas esse ano!

Simone Maia

08 de janeiro de 2025

A Vida e a Montanha

Fui desafiada pelo meu Mentor a escrever um novo final para o meu texto “Ano Novo Feliz”. Ele pediu que eu pensasse em um final no qual eu não terceirizasse meu futuro. Mais precisamente, ele me convidou a repensar o seguinte parágrafo:

Voltando ao meu 2022: este ano não vou correr para lugar algum. Já cheguei! Bati a meta! Deus me concedeu meu desejo! Corri muito na última década e dei meu sprint final em 2021. Agora vou curtir, vou admirar, vou agradecer. Até que alguém me convide para a próxima maratona e eu decidir sair correndo de novo!

Depois de semanas ruminando sobre o tema e a tal da terceirização do meu futuro deixado à mercê de um convite para que eu pudesse sair correndo de novo, concluí que eu devia estar mesmo inebriada pelo cansaço ou bêbada pelos espumantes do final do ano.

Os motivos para tal conclusão são meus velhos conhecidos:

1º – eu não deixo minhas escolhas por conta de ninguém. Minhas escolhas me dirigem os passos e seria muito básico terceirizá-las agora, no auge dos meus 50 anos;

2º – eu havia acabado de dizer que não queria correr em 2022. E como assim eu digo que vou seguir o convite de alguém para sair correndo de novo?

Analisando minhas palavras à medida em que elas ecoam pela minha mente e coração, retomo minha essência e reafirmo a importância de refletir sobre meus processos, minhas conquistas e os próximos desafios, a fim de fazer escolhas seguras. Escolhas apropriadas. Escolhas segundo minhas necessidades e desejos.

Aprendi com meu Mentor que a vida pode ser melhor interpretada quando comparada ao alpinismo e não à maratona. Amei a metáfora do alpinista sobre os significados da subida, do cume e da descida. Passei os últimos anos da minha vida em uma subida íngreme, cheia de desafios e pedras pelo caminho. Fiquei pendurada na corda algumas vezes e, determinada, cheguei ao cume, de onde enxerguei beleza, amplidão – adoro a amplidão – e experimentei satisfação, prazer, paz e descanso. Queria ficar lá mais um pouco, mas no cume não é lugar de ficar, não é lugar de morar, não é lugar seguro para me instalar. O cume serve para admirar, respirar, agradecer e… voltar! Depois do cume tem a descida de volta ao basecamp. A descida costuma ser mais tranquila, às vezes até mais fácil, mas é preciso atentar para os perigos da caminhada despretensiosa e desatenta enquanto a mente dá voltas rememorando as delícias do cume. Logo, é preciso se atentar para a descida também. Retomar o fôlego, apreciar a vista sob outra perspectiva e aproveitar o conforto necessário para a retomada rumo ao novo desafio.

Ainda não sei qual será o próximo desafio. Mas não estou com pressa. Desisti de ser maratonista correndo cansada para chegar à linha final e desmaiar com a língua de fora.
A partir de agora desejo a concentração da subida planejada, o prazer absoluto do cume estonteante e o prazer da descida revigorante com gosto de vitória.

Feliz 2022! Feliz 2023! Feliz 2024…

Ano Novo Feliz!

Essa respirada que a gente dá no final do ano tem um significado tão interessante, não é? De fato, não muda nada. É só mais um dia atrás do outro – sol se pondo, lua e estrelas no céu, sol nascendo e lá vamos nós outra vez! Mas a parada que a gente dá para pensar na vida, reunir com nossos amores, dormir até mais tarde um pouquinho e fazer um montão de planos bem-intencionados é espetacular.

Há semanas tenho refletido sobre os meus próprios planos e os desafios para 2022: meu Ano Novo promete ser um ano espetacular! Eu o sinto como um céu claro, com um arco-íris lindo de ponta a ponta, da categoria que aparece depois de uma tempestade daquelas, estampado no céu ainda cinza, recobrindo a grama molhada. A sensação é boa! E em meio à minha reflexão volto à velha pergunta: O que vem primeiro? A bênção ou a determinação? 2022 vai ser incrível porque “Deus quis” ou porque eu trabalhei pra cace… em 2021?  Ano passado eu trabalhei determinada e quase cega por um foco que permaneceu bem forte, mirado bem na minha cara. O que vem primeiro? A bênção ou a determinação? Essa é o dilema que me acompanha. E quer saber o pior? Não tenho resposta não. Se você achou que eu poderia ter qualquer capacidade de responde-la, so sorry. Tenho não!

Mas… já que parece que não terei resposta tão cedo para o meu dilema, resolvi escrever sobre a perspectiva daquilo que depende de mim, com o puro e simples objetivo de compartilhar com você uma crença: a fé misturada à determinação funciona. Ou, já que eu não sei mesmo o que vem primeiro, podemos inverter a frase: a determinação misturada à fé funciona. Minha própria vida é a expressão dessa lógica, que creio ser a única coisa sobre a qual eu realmente tenha propriedade para falar. É minha. É real. É fato que aconteceu e continua acontecendo comigo.

Sob essa perspectiva, o que tenho a dizer é que se você quer fazer alguma coisa, se deseja conquistar algo, se concentre nisso, planeje, compartilhe seu plano com o Pai e trabalhe duro em prol do que a Bíblia chama de desejo – e nossa sociedade chama de meta.

Sempre fui uma cristã determinada. Se desejo fazer algo, eu foco, concentro e me movimento em direção ao alvo. Me movimento muito! Sou incansável quando tenho uma mira certa. Por isso a ordem se mistura. Mas uma coisa é certa: a bênção de Deus permeia meus dias de maneira sensível, perceptível. Recebo luz, incentivo, força, garra, capacidades que vem do alto, de algum lugar para além das minhas próprias virtudes. E é nessa mistura que venho vivendo. Uma coisa eu tenho certeza: a bênção de Deus não me atinge como um raio enquanto eu fico sentada no sofá da sala. Ela me alcança enquanto eu estou me movimentando em direção ao alvo que estabeleço com a “opinião” do meu Criador. E vou seguindo e vencendo. Só sei que vou vencendo. Corro, canso, caio, levanto, saio correndo de novo e chego. Mas nunca fico sentada esperando.

Se você quer algo, dê uma palavrinha com seu Pai, organize sua alma e comece! Mas comece com fé! Movimente-se na direção do seu desejo de forma determinada e focada e você vai chegar lá. Sei que vai. Aahh! Lembrando que você vai “trupicar” algumas vezes pelo caminho, ralar o joelho, pode até quebrar a perna, mas aguarde o tempo da recuperação e recomece a jornada. Isso o mercado de trabalho chama de resiliência. Também podemos chamar de fé. Não importa o nome que você dê. Só trabalhe. Divida seus passos com Deus e siga no caminho do seu desejo. Para quem crê, tá aqui:

“Agrada-te do Senhor, e ele satisfará os desejos do teu coração. Entrega o teu caminho ao Senhor, confia nele, e o mais ele fará” (Salmo 37:4,5).

Voltando ao meu 2022: este ano não vou correr para lugar algum. Já cheguei! Bati a meta! Deus me concedeu meu desejo! Corri muito na última década e dei meu sprint final em 2021. Agora vou curtir, vou admirar, vou agradecer. Até que alguém me convide para a próxima maratona e eu decidir sair correndo de novo!

Desejo um feliz 2022 para você também!

Simone Maia

“Eu vou seguir com fé!

Com meu Deus eu vou para a Rocha mais alta que eu.

Eu sei para onde vou:

Como águia vou nas alturas!

Sou filho de Deus.”

Kleber Lucas

O manjericão e a abundância

“O paradigma da escassez afirma que não existe o suficiente pra todo mundo. Esse pensamento dá origem ao medo e a disputa por dinheiro e bens materiais. Uma mentalidade de abundância, por outro lado, diz que sempre existem novas chances e oportunidades e que há mais do que o suficiente para que todos possam ter uma vida plena e próspera”.

O manjericão é uma das minhas ervas de tempero prediletas. A começar pelo molho pesto, passando pela salada até chegar ao molho de tomate, muitas coisas que faço levam manjericão. Quando comecei a gostar de usar, não achava facilmente para comprar, mas minha amiga Anna Maistri, então minha vizinha e dona da melhor receita de pesto que eu conheço, sempre tinha manjericão da horta dela para dividir comigo.

A vida me levou para São Paulo e quando me trouxe de volta para Brasília, recebi visita da minha amiga Anna na casa para onde nos mudamos – a casa nova era longe da casa da Anna. Então, eis que ela chega com um vasinho plantado com uma bela muda de manjericão diretamente da horta dela para o meu novo jardim! Uma muda linda e preciosa daquele manjericão grandão, cheiroso, delicioso e especial que faz um montão de pesto!

Sempre cuidei com carinho do meu pé de manjericão, mas ele nunca prosperou tanto quanto o manjericão da Anna. Anna sempre tinha manjericão e eu não! Seis anos se passaram entre ter manjericão na horta para usar a hora que quisesse e não tê-lo. Até o dia em que os pés de manjericão acabaram completamente e eu pedi à Anna uma nova muda. E eis que ela respondeu: “Também estou sem. Aconteceu alguma coisa na horta e acabou todo o manjericão”.

Dois anos se passaram e eu me mudei de casa mais uma vez! Preparando para mudar, me dei conta que certa vez eu havia feito um arranjo com alguns galhos secos cheios de sementes do manjericão da Anna. Eu havia esquecido. Que alegria! E parti para uma nova empreitada de plantio de manjericão. Eu e Luciano semeamos em um “berçário” e logo logo as mudinhas  verdinhas começaram a surgir. Mas…. a alegria durou poucos dias, pois as mudinhas estavam enfraquecidas e não tinham forças para continuar crescendo.

Em uma tentativa desesperada de salvar minhas últimas mudas, transplantei todas elas meio que de qualquer jeito para uma pequena horta que meu pai e minha netinha haviam feito no novo jardim. E torci!

Em meio a tudo isso, ganhei de presente do meu novo vizinho um pezinho de manjericão. Ao me entregar o vaso, o Sr. Antônio recomendou: “sempre corte as flores para ele crescer”! Com todo carinho, plantamos o novo pezinho de manjericão ao lado da horta, que já estava cheia de orégano, alecrim, hortelã e as mudinhas do manjericão da Anna que lutavam para prosperar. E qual não foi minha surpresa quando percebi que tudo estava crescendo e ficando lindo! Todos os temperos, inclusive os dois tipos de manjericão – o da Anna e o do Sr. Antônio!

Um belo dia, festejei: “Eba! Já dá para usar o manjericão”!

Contudo, antes de começar a tirar as folhas tive o cuidado de assistir a um pequeno vídeo na internet sobre como tirar as folhas do manjericão para não estragar o pé. Peguei uma tesoura e parti para a horta para ser feliz! Associei a técnica da extração recém aprendida à poda regular das flores e assisti aos meus pés de manjericão crescendo e crescendo e crescendo  até o ponto de ter para mim e para dividir.

E um belo dia, enquanto voltava da horta com as mãos cheias de manjericão exalando o mais delicioso dos perfumes, me peguei refletindo sobre a lógica absolutamente maluca dos novos pés de manjericão: quanto mais eu corto, quanto mais eu podo, quanto mais eu uso, quanto mais eu divido, mais manjericão eu tenho! Para quem é agricultor, minha descoberta não traz novidade alguma. Mas para a pessoa urbana que sou, a lógica do crescimento do meu manjericão me remete a algo muito legal: o manjericão segue a lei da abundância. Se eu achar que o manjericão vai acabar e por isso eu ficar economizando e tirando poucas folhinhas de cada vez (lógica da escassez), o pé vai enfraquecer e minguar até acabar. Mas, se eu cortar as pontas e tirar bastante para usar, terei muitas flores, novas sementes, e o pé cresce a ponto de tombar de tão grande e pesado! Foi o que aconteceu aqui na minha horta.

Que milagre maluco! Que lógica linda para se aplicada a tudo na vida: a certeza de que algo não vai acabar gera um ciclo lindo de abundância – quanto mais eu compartilho, quanto mais eu distribuo com as pessoas, quanto mais eu uso os recursos que tenho, mais me fortaleço e para ser canal de bênção na vida das pessoas – canal de carinho, de amor, de cuidado e até de grana, quando necessário.

Enquanto eu “economizei” meu manjericão para que nunca me faltasse, tive pezinhos fracos que minguavam até a morte. E agora que aprendi a podar e a usar “em abundância” e sem medo de que ele acabe, ele cresce lindo, viçoso e exuberante.

Vou me lembrar sempre dos meus pés de manjericão quando um pensamento de escassez qualquer cruzar minha mente e, inadvertidamente, eu pensar que algo vai me faltar. Vou me lembrar que meu Pai do Céu é um Deus de abundância e de provisão material, espiritual e emocional.  E que você possa lembrar disso também! Que a nossa matemática seja tão inversa quanto a matemática celestial!

Simone Maia, 13 de novembro de 2021.

Já pode ser feliz de novo?

Ei gente, tem mais alguém aí com vergonha de ser feliz de novo?

Estou com uma vontade louca de voltar a ser escancaradamente feliz, mas estou sem graça. Apesar de estar cheia de bons motivos.

Já tá quase todo mundo da minha idade e do meu ciclo com duas doses de vacina, mas sinto que ainda é meio errado viajar (mesmo que a trabalho), contar coisa boa e chamar o povo pra almoçar junto, seja nas casas uns dos outros ou em algum restaurante. Sempre necessário dar satisfações intermináveis e apresentar um montão de boas desculpas para ver meia dúzia de gente. Me parece certo manter um certo ar de tristeza e ceticismo em relação à vida e ao futuro.

Estou perdida entre as vozes que gritam “a pandemia ainda não acabou! Sossega aí” e a conclusão pragmática de que duas doses de vacina e um monte de ameaças reais remanescentes “é o que temos para hoje. Bora”!

Já posso sair e gargalhar alto?

Já posso brindar outra coisa que não seja saúde?

Já posso parar de fazer pequenas reuniões às escondidas?

Já posso voltar a sonhar?

Já posso comemorar as coisas?

Já posso olhar pra frente e convidar as pessoas para terem um novo olhar de esperança junto comigo?

Tudo isso “feels like” falta de educação e bom senso. A vida está com gosto de manteiga rançosa.

É isso mesmo, gente? E agora? Socorro!!!! Estou reprimida por mim mesma, por todo mundo e por ninguém. Será que vou ter que superar as eleições de 2022 no Brasil antes de ser liberada pra ser feliz sem ser rotulada de pertencer ao Lado A ou ao Lado B? E eu aqui sigo perguntando: a vida tem lado, por acaso?

Alguém por favor me avisa quando estarei liberada para viver feliz?

Simone Maia

Vitória > São Paulo, 25 de agosto de 2021.

Proibido ficar triste

Essa é uma reflexão específica para quem se reconhece e se declara cristão, mas todos são bem-vindos à leitura!

Os últimos três meses tem sido tempos bem difíceis pra mim. Eu sei: os últimos três meses tem sido difíceis para milhões e milhões de pessoas pelo mundo afora. Mas quero falar de mim. E só por mim!

Além de um turbilhão de profundas mudanças internas que sucederam decisões complexas e desgastantes tomadas em 2020, o rol das dificuldades do primeiro tri de 2021 inclui a perda de um tio amado para o câncer e da minha tia querida mais próxima para a COVID. Ao mesmo tempo – 2 hospitais, 2 boletins médicos, 2 UTIs e notícias catastróficas a cada dia, acelerando o coração a cada vez que meu celular recebia as mensagens nos dois grupos de Whatsapp da família. Duro. Difícil. Indigesto. Incompreensível. E dolorido. Muito dolorido.

Os dias perderam a cor e a graça. A angústia das perdas, o medo insano da doença ameaçadora chegando bem pertinho de mim tirou a alegria de qualquer encontro, de qualquer saída para fazer qualquer coisa na rua. Parei de convidar. Parei de sair. E eis que o lockdown aconteceu dentro de mim. A solidão profunda, fruto de mais de um ano de trabalho remoto em uma casa vazia se intensificou. Na falta do que fazer e com uma casa pela frente para construir, me joguei no trabalho com uma intensidade que não se faz ideia. Prazer, conquista, satisfação e fuga.

No meio disso tudo, de vez em quando ousava responder algo real à tradicional pergunta brasileira:

– Oi, Simone! Tudo bem?

– Não!

As reações dos interlocutores variaram do silêncio aos telefonemas. Durante o telefonema reativo de um amigo muito amado, eu desfiava meu terço de lamentações quando de repente ele amorosamente respondeu algo mais ou menos assim:

– Ah não! Quero ver você assim não! Quero seu otimismo de sempre!

Essa frase bateu dentro da minha alma cristã como uma pedra de chumbo. Os mantras dos ‘crentes’ e os versos bíblicos utilizados para tecê-los ecoaram dentro de mim por dias. Querem saber alguns? Vamos lá!

  1. Fica assim não!
  2. Fica triste não!
  3. Deus é bom! Deus é sempre bom!
  4. A alegria do Senhor é a nossa força!
  5. A tristeza pode durar uma noite, mas a alegria vem ao amanhecer.
  6. Alegrai-vos sempre no Senhor. Outra vez digo: alegrai-vos no Senhor.
  7. Deus vai te dar graça. Fica firme.
  8. Tenha fé!

Eu poderia seguir tecendo uma lista capaz de tomar a próxima página inteirinha, mas hoje escrevo para dividir com vocês uma reflexão diferente. Quero refletir o contrário, o controverso, o oposto, o inverso.  Hoje eu quero falar da tristeza e fazer coro com milhares de pessoas gritando coisas assim:

  1. ME DEIXA FICAR TRISTE!
  2. EU ESTOU TRISTE.
  3. MORREU GENTE QUE EU AMAVA.
  4. EU ESTOU COM MEDO.
  5. ME DEIXA EM PAZ!
  6. DÁ UM TEMPO PRA MINHA ALMA!

Hoje eu só quero lembrar aos meus irmãos cristãos que “Jesus chorou” e eu e você temos o direito de chorar também. Quero lembrar que Ele também pediu para não morrer porque estava com medo. E quero lembrar que nós ainda não estamos vivendo em “ruas de ouro com mar de cristal” e que a bagaceira aqui no asfalto é severa. Dá pra chorar todo dia se quiser. É permitido ficar triste, gente. Eu e você não precisamos de um sorriso interminável no rosto. Ninguém virou anjo ainda, apesar de alguns se comportarem como gente com asa.

Precisamos urgentemente aprender a diferença entre ESTAR triste e SER triste, e assim podermos viver nossos processos emocionais com tranquilidade e equilíbrio. A saúde emocional é fruto da autoconsciência e a empatia – ou a compaixão, para usar a palavra bíblica – só é real e possível quando compreendemos nossos ciclos internos e nos autorizamos a vive-los inteiramente. Não precisamos fingir alegria infinita. Esse dia da felicidade eterna ainda não chegou.

Querem saber um pouco mais acerca das minhas semanas subsequentes? 20 dias depois da morte da minha amada tia Esther que não resistiu à COVID, minha mãe me liga com voz estranha e meu irmão me manda uma mensagem curta, fria e suspeita. Atendi minha mãe só pra dizer que não poderia falar. Eu estava a 40 minutos de terminar um treinamento online que eu estava facilitando. Não sei como cheguei ao fim. Eu já sabia: alguém da lista dos mais amados estava com COVID. Terminei meu treinamento não sei como, e retornei a mensagem do meu irmão. Telefone na mão, coração na boca, escutei:

– “Irmã, eu, a Jaque e a Luisa estamos com COVID”.

O chão do meu jardim parecia se abrir debaixo de mim. Como assim? Ainda não terminei de processar a merda anterior! E soltei para mim mesma um sonoro e conhecido “Jesus, misericórdia! Minha mãe não vai aguentar isso”. E os próximos dias passaram no sufoco e na dor da evolução da doença que pegou meu amado irmão de jeito. Contei os dias com minha cunhada, aprendi a entender laudos de exames e tomografias, choramos ao telefone e clamei a Deus a cada dia para meu amado Dinho não vomitar o pouco que estava comendo; e eis que ele saiu do perigo. Ufa! “Obrigada, Deus”. Suspirei.

Uns 5 dias de alívio se passaram e chegou o dia do aniversário da nossa filha Luciana! Programei um dia gostoso e cheio de detalhes dignos da minha habilidade festiva e alegre. Na noite anterior saímos rapidamente para comprar presentes (apesar de ter me sentido temerosa no shopping) escolhi um restaurante especial e no dia “D” saí de casa alegre e saltitante, me sentindo feliz depois de muito tempo. Entrei no carro e dirigi cantando enquanto escutava alguma música boa até chegar na porta do restaurante e encontrar o Luciano, meu Amor, que me disse assim:

– “Não chegue perto de mim. Minha garganta está doendo”.

Naquele momento o céu fechou em tons de cinza de novo. E hoje é o nono dia em que o vírus chegou aqui mesmo dentro da minha casa. Não poderia ser mais perto – no meu quarto, na minha cama, no meu amor. Me encontrou cansada e está me deixando exausta. Saudável e livre da peste, eu escolho cuidadosamente a dieta e cozinho para ele com amor (leiam o depoimento maravilhoso do Luciano hoje mais cedo em http://cafecomdeus.com.br/2021/05/08/o-paradoxo-das-lagrimas/, limpo, lavo, esfrego o chão com água sanitária, subo e desço a escada com bandejas limpas e contaminadas com um amor servidor que transborda em forma de força e disposição para fazer o que precisa ser feito. E tá tudo bem!

Entendeu? Então, não me diga que eu não posso me sentir triste. Não diga a ninguém! Não me diga para eu ficar alegre. Não agora. Não me acelere. Eu já sei que Deus cuida de mim e que é Ele mesmo que me dá paz em meio à tristeza. Mas paz e alegria são coisas muito diferentes. A paz não vai embora quando a tristeza chega. Precisamos conhecer e diferenciar nossos sentimentos para podermos olhá-los de frente e vivenciá-los um a um, sem cobrança. Eu me incluo na lista do aprendizado. Precisamos ser empáticos e compassivos como o Mestre, que não julgava, mas só amava.

Ah! E ficava triste.

Simone Maia

Brasília, isolada em quarentena, 08 de maio de 2021.

Sonhos, planos e pandemias

Há cinco anos vivo em duas cidades. Me divido entre a capital política e a capital financeira aproveitando o melhor dos dois mundos que me são oferecidos por cada uma delas. Dois paraísos, como costumo dizer: o primeiro o meu “Paraíso Verde” e o segundo o meu “Paraíso Cinza”. Uma casa em cada lugar, um filho em cada ponta, uma vida integrada no vai e vem dos vôos que me levam e trazem na maior alegria, seja qual for a direção.  Clouds & Heaven!

Em meio a esse vai e volta gostoso, um dia levei um susto! Era dezembro de 2019, eu estava há dois dias trabalhando em um hotel em Campinas, entupida de remédios que combatiam uma gripe forte acompanhada de uma bronquite leve que, de tão cansado e gasto, meu corpo não havia conseguido combater sozinho. Fato raro. E lá estava eu totalmente drogada para dar conta de escalar o restinho das montanhas as quais Deus tão gentilmente me presenteou ao longo do delicioso ano de 2019.

No quarto do hotel ao final de um dia produtivo, feliz porque estava melhorando da saúde e havia conseguido finalizar um trabalho importante, de repente, do nada, me senti extremamente solitária. Senti, de súbito, a solidão pela primeira vez na vida, aos 48. Totalmente só e perdida no mundo. Naquele momento, em uma pequenina fração de tempo, nada fazia sentido. Nada. Achei estranho, respirei fundo, e tomei coragem para olhar atentamente pra dentro e lá estava ela: uma vontade de mudar um pouco a dinâmica da dualidade geográfica da minha vida.

Após alguns dias de reflexão corajosa, oração e conversas com meu marido e melhor companheiro de vida, decidi reprogramar 2020 para inverter meu percentual de permanência em cada uma das cidades – seguiria vivendo nas duas, mas de maneira invertida: mais tempo em Brasília e menos tempo em São Paulo. Essa decisão implicaria em um grande esforço profissional, a fim de “virar” minha vida profissional na mesma proporção da minha vontade.

E começamos! Janeiro e fevereiro seguiram quentes, agitados, dentro do plano. Março chegou fervendo. E eu já poderia finalizar minha história por aqui, pois a sequência do enredo todo mundo (literalmente! Hahahaha) já sabe.

Nos últimos cinco meses passei quase todos os meus dias sentada à mesa que vocês veem nesta foto, que é a varanda da nossa casa em Brasília. Na maior parte do tempo trabalhando, em alguns momentos curtindo as refeições em família, desenhando com minha netinha, ou apenas olhando a vista que é linda daqui. A foto foi tirada ontem, enquanto eu estava ao sol, tomando chá para combater os estranhos 14° às 11 da manhã por aqui. Estava simplesmente me esquentando no intervalo entre uma reunião virtual e outra, em pé olhando a cena “ao contrário”, observando meu Paraíso Verde a partir de uma perspectiva diferente, quando subitamente me senti tranquila, plena e profundamente em paz. E levei um susto de novo. Em uma nova pequenina fração de tempo me apercebi de que a motivação do meu plano para 2020 foi totalmente suprida em virtude da condição imposta pela pandemia. Sim, graças a ela e a consequente impossibilidade de viajar, sempre tenho companhia que amo, passo tardes inteiras me divertindo com a Amélie, recebo minha filha e genro para almoços corridos durante a semana (como aqueles que meus pais faziam para nós quando os meus eram os pequenos da vez). Este ano já tive os dois filhos reunidos ali mesmo na varanda por três vezes em sete meses. E vejam: eu não desfrutava dessa alegria com tanta frequência desde o longínquo ano de 2010, que foi o ano em que Luciana se mudou da nossa casa! Vejam só! Que pandemia essa…

E tudo isso me leva de volta à reflexão antiga que frequentemente faço: em que medida meus desejos e projetos me conduzem de forma disciplinada para o meu destino, ou é Deus quem planta antecipadamente desejos específicos no meu coração e gera na minha mente os projetos para que eu vá por onde Ele quer? Em última instância, o que faz um plano dar certo? Tem hora que os planos dão certo em situações tão inusitadas, que sou inclinada a crer que a segunda alternativa é o que acontece de fato. Obviamente que essa opção é válida apenas para aqueles que creem na soberania de um Deus sobre todas as pessoas e coisas que lhes acontecem.

Mas essa lógica de planejar não é automática. Deus pode cochichar algo pra mim e eu não perceber ou não me importar. Ou posso não querer – sempre tenho (e todos nós temos) a possibilidade de não querer. Contudo, tenho experimentado a alegria da realização do meu desejo transformado em planejamento anual de maneira tão intensa ao longo dos dias pandêmicos, que reforço a crença daquilo que mais quero na vida: que meus dias e anos sejam fruto da realização disciplinada de um plano sussurrado por um Pai que sabe muito mais que eu, que enxerga além e que cuida dos caminhos por onde eu ando. Quero a segurança de saber que o que eu “quero” é reflexo da escuta atenta dos cochichos amorosos e cuidadosos que recebo em meio à correria e os afazeres da minha vida normal, agitada e prazerosa.

Que eu possa aproveitar os novos sussurros que tenho ouvido durante a quietude dos muitos dias de pandemia para seguir planejando a execução daquilo que já foi um dia sonhado pra mim.

Brasília, 08 de agosto de 2020.